Saúde mental: Do estigma religioso à compaixão de Jesus
- 29/04/2026

No meu artigo anterior, Os cristãos podem sofrer de doenças mentais?, expliquei que os cristãos não são isentos do sofrimento, inclusive na área da saúde mental. Podemos ter compaixão de quem luta batalhas interiores e acolhê-los nas nossas igrejas com amor.
Infelizmente, ainda existe ignorância, estigma e medo sobre o tema da saúde mental. É difícil admitir a existência de desafios que gostaríamos que não existissem, sobretudo quando afetam a construção dos nossos pensamentos e percepção do mundo.
E os cristãos podem ser ainda mais preconceituosos, assumindo que crentes não sofrem nessa área, pressionando as pessoas a esconder a sua dor para “dar um bom testemunho” ou associando de modo simplista o sofrimento ao pecado e à obra do Diabo. As suas intenções podem ser boas, mas acabam adicionando culpa e pressão religiosa a quem já sofre, agravando a sua dor.
Questionando pressupostos simplistas
A Bíblia redime a visão humana do sofrimento, ajudando-nos a passar do julgamento à compaixão e da humilhação de quem sofre à sua inclusão na comunidade da fé.
Por exemplo, inicialmente o sacerdote Eli desprezou o sofrimento de Ana, achando que ela estava falando sozinha porque estava embriagada. Mas quando ela explicou que “estou orando aqui até agora por causa de minha grande angústia e tristeza,” ele constatou a sua fé e mudou de atitude: “Vá em paz, e que o Deus de Israel lhe conceda o que você pediu” (1 Samuel 1:12-17).
O livro de Jó questiona a correlação simplista entre o sofrimento e o pecado. Amigos enquadram a sua dor em uma relação mecânica de causa e efeito para “ajudá-lo” a sair dela: “Sujeite-se a Deus, fique em paz com ele, e a prosperidade virá a você” (Jó 22:11). Mas Jó reconhece que o sofrimento humano é muito mais complexo e que os seus amigos crentes estavam mais atrapalhando do que ajudando.
“Um homem desesperado deve receber a compaixão de seus amigos… Pois agora vocês de nada me valeram; contemplam minha temível situação, e se enchem de medo.” (Jó 6:14, 21)
A anatomia do estigma religioso
A história bíblica que melhor contrasta o estigma religioso à compaixão de Jesus é a cura do cego de nascença em João 9. Jesus vê aquela doença como uma oportunidade de dar glória a Deus e concede visão ao cego em um sábado (João 9:3-6). Mas podemos notar várias facetas do estigma religioso nas atitudes dos discípulos, dos vizinhos, dos pais do cego e dos fariseus que o examinam.
Preconceito: os discípulos demonstram uma associação simplista da doença com o pecado quando perguntam a Jesus: “Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?” (João 9:2). E os fariseus não consideram a cura do cego uma obra de Deus porque acontece em um sábado, dizendo “Esse homem não é de Deus, pois não guarda o sábado” (João 9:16a).
Negação: alguns dos vizinhos não acreditam no milagre. Os fariseus também “não acreditaram que ele fora cego e havia sido curado enquanto não mandaram buscar os seus pais” (João 9:18). E o mecanismo da negação é construído sobre uma grande simplificação, que divide a realidade entre pessoas e eventos “de Deus” ou “não de Deus.”
Divisão: em vez de levar à gratidão, a cura do cego divide os vizinhos: “Alguns afirmavam que era ele. Outros diziam: ‘Não, apenas se parece com ele’. Mas ele próprio insistia: ‘Sou eu mesmo’ (João 9:9) O mesmo acontece com os fariseus em relação a Jesus. “Alguns dos fariseus disseram: ‘Esse homem não é de Deus, pois não guarda o sábado’. Mas outros perguntavam: ‘Como pode um pecador fazer tais sinais miraculosos?’ E houve divisão entre eles” (João 9:16).
Coerção: a incredulidade dos fariseus os leva a abusar do seu poder religioso e coagir o homem a rejeitar os fatos e adaptar a sua perspectiva ao estigma religioso deles. “Pela segunda vez, chamaram o homem que fora cego e lhe disseram: ‘Para a glória de Deus, diga a verdade. Sabemos que esse homem é pecador’” (João 9:24).
Abdicação de responsabilidade: diante de tal pressão, os pais do cego não defendem plenamente o filho, pois têm medo de sofrer exclusão religiosa e ser expulsos da sinagoga (João 9:20-23).
Humilhação e exclusão religiosa: diante da insistência do cego sobre os fatos – que tinha nascido cego e sido curado naquele dia – os fariseus preferem rejeitar a realidade do que repensar o seu estigma religioso. “Então o insultaram e disseram: ‘Discípulo dele é você! Nós somos discípulos de Moisés! … Você nasceu cheio de pecado; como tem a ousadia de nos ensinar?’ E o expulsaram” (João 9:28, 34).
Cegueira espiritual: qual é a conclusão da história? O cego vê e os fariseus revelam a sua cegueira espiritual! “Disse Jesus: ‘Eu vim a este mundo para julgamento, a fim de que os cegos vejam e os que vêem se tornem cegos’” (João 9:39).
Do estigma à compaixão
Essa história se refere à cura de uma doença física, mas demonstra o estigma religioso que ainda hoje associa as doenças mentais ao pecado, falta de fé, maldições e obra do Diabo. Muitas pessoas que sofrem nessa área se sentem não compreendidas, julgadas ou pressionadas a negar a sua dor, especialmente em ambientes religiosos.
Ao analisar esse episódio bíblico, os autores de Struggling with God: Mental Health & Christian Spirituality afirmam:
Essa história refere-se à deficiência física, mas é típica da forma como o estigma funciona e se liga a várias condições. Quando se trata de saúde mental, muitas pessoas que lutam contra desafios de saúde mental relatam experiências semelhantes às desta passagem: podem ouvir que não são suficientemente espirituais, que não oram o suficiente, que não se esforçam o suficiente, que não acreditam nas coisas certas, que não têm fé suficiente —versões diferentes da pergunta dos discípulos: “Quem pecou?” ... A teologia ou a espiritualidade cristã podem ajudar a superar esses desafios, mas também há maneiras pelas quais elas podem tornar a vida mais difícil. Teologias defeituosas e teologias que reforçam o estigma precisam ser identificadas e refutadas. Já é difícil lutar contra a depressão sem ouvir que isso se deve à sua falta de fé. O desafio da esquizofrenia só piora quando se diz que ela se deve à influência demoníaca... Uma pessoa que luta contra uma doença mental pode, na verdade, estar florescendo em fé, esperança e amor... A espiritualidade cristã digna desse nome inclui sofrer com Jesus no Getsêmani e no Calvário, na esperança de compartilhar também da sua ressurreição. [1]
Os cristãos não são isentos do sofrimento, inclusive na área da saúde mental. Mas podemos sofrer com fé, esperança e circundados por pessoas que nos amam! Nossas igrejas devem ser lugares de acolhimento e amor, em vez de negação, coerção e humilhação de quem sofre.
[1] Christopher C. J. Cook, Isabelle Hamley, e John Swinson, Struggling with God: Mental Health & Christian Spirituality (SPCK, 2023), 24, 131, 134.
René Breuel é um pastor brasileiro que mora em Roma, na Itália. Autor das obras O Paradoxo da Felicidade e Não É fácil Ser Pai, possui mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e em Teologia pelo Regent College, no Canadá. É casado com Sarah e pai de dois meninos, Pietro e Matteo.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
Leia o artigo anterior: Os cristãos podem sofrer de doenças mentais?








